O táxi continua rodando pela cidade, enquanto ela olha pela janela embaçada, que há cinco minutos era límpida. Temporal dentro e fora. A cidade chorava com ela. Os jasmins fechando-se, eram a lembrança de uma noite estrelada, o que era o som ao fundo, talvez de flauta, talvez Sinatra, e o gás lacrimogenio que sua geração não enfrentava vinha da polícia que não tornou subversivo seu desbunde, e as lágrimas embaçavam os olhos que já enxergavam de modo tortuoso as ruas, um estado de calor e mar, um presidente esquecido da memória, uma tribo indígena, um governador letrado, a sobreposição de nomes, sombras, luzes, sinais. E através dos números cada vez maiores no taxímetro, se provava a falta de direção da ruiva que chorava em seu banco traseiro. Mais uma tribo indígena, um hotel manchado pela podridão, pela marginalidade, pela amnésia cultural de um povo direitista, extremista, moralista e sujo. “A luta do homem contra o poder, é a luta da memória contra o esquecimento.”, mas não se luta mais contra o poder, putas são apenas putas, poetas cobram o verso, um cigarro dividido por sobre um café é perda de tempo, e uma cerveja para atiçar as vontades é irresponsável. A cidade não cheira mais a jasmim e gás lacrimogenio, os poetas estão mortos, e a loira, que Anita decidiu pequena e graciosa nada mais é além de um mito empoeirado. Quem sabe ande todos os dias pelos índios, políticos, estados, e ninguém sequer note que é a memória viva de um país decrépito.
Não havia anel para entregar ao taxista que, pacientemente, a convencia a retroceder, voltar para o calor do seu não-conhecimento. Mas ela sabia que mesmo não descendo, voltando, se escondendo, ela ainda assim não seria mais a mesma, pois agora, como nunca antes, aquela vontade profunda de correr e fugir do real havia determinado uma mudança maior que o normal.
E, num ruflar de asas de borboleta, Anita virou Hilda. E compreendeu que
terça-feira, 17 de agosto de 2010
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