domingo, 31 de outubro de 2010

A culpa é do companheiro Gilberto.

Volto, diretamente, das urnas pro blog- literalmente. Acabei de chegar em casa da votação. Resolvi escrever porque ando recebendo críticas a rodo, por gostar de política e ter uma opinião. Gostar de política hoje em dia não é legal, não dá ibope. Ter uma opinião formadinha, então, Deus do céu, é garantia de que metade dos seus amigos vai te achar uma grande babaca. Que eu seja babaca, então. Amo política, amo o processo democrático, acho tudo lindo, acho que tem que ser aproveitado, acho que todo mundo devia parar um pouco e repensar o tanto que se devia dar valor à política. Mas não vim aqui tentar fazer a cabeça de ninguém. Vim aqui contar um caso.
A pergunta sempre vem à tona: "Cecília, POLÍTICA? Sério que você gosta disso? Sério que ainda por cima você é PT?", e eu não tinha conseguido chegar a uma explicação até hoje. Tudo bem, esse texto não é um caso, então. É mais uma carta aberta. E a política, o PT, e a paixão pelo processo democrático, é tudo culpa do companheiro Gilberto.
Minha mãe era militante fervorosa. Antes de mim, grávida de mim, comigo no colo, não importava. Minha mãe militou muito, estudou muito, e me passou isso tudo. Eu passei a infância inteira ouvindo, sorvendo, saboreando as histórias dela, os estudos dela. Fui uma criança diferente das outras, andava serelepe de broche do PT, minhas músicas de ninar eram Chico e Elis. Eu brincava, brinquei até grandinha, mas na minha casa nunca teve censura de informação. Eu lia jornal, a estante de livros era completamente alcançável pra uma criança de 6 anos,e ninguém nunca me proibiu de ler ou ver o que eu quisesse. E enquanto o imaginário de alguns era povoado por fadas e princesas, o meu era povoado por gente de verdade, e pelo companheiro Gilberto, que eu nunca vi, mas imagino alto, bonito, de camisa vermelha e boina. Companheiro Gilberto foi o braço direito de militância da minha mãe. Ele morava num quarto-banheiro-cozinha, e só queria mudar o mundo. Nunca soube o que foi feito dele, o que afligia o meu eu de 7, 8 anos - eu amava o Companheiro Gilberto, ele era o meu príncipe no cavalo branco. Esse homem que eu tanto ouvia, e nunca vi, e nunca sequer soube que fim levou, se é que levou fim. Gosto de imaginar que ele anda por aí, boina na cabeça, gritando os gritos de outrora, e feliz, muito feliz, sambando em cima das mesas, os olhos cheios de lágrimas de emoção. Foi ouvindo Gilberto, e lendo o que ele deixou, que eu me apaixonei pela primeira vez - por ele, e por política.
Companheiro Gilberto, onde quer que você esteja, obrigada. Eu gosto um bocado de não fechar meus olhos pra política. E tomara que hoje nós dois possamos cantar, sambar e nos envaidecer de mais uma vitória.

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