domingo, 28 de novembro de 2010

Quando era tempo de plantar, plantei. E machuquei amantes e amigos, contorci o corpo, em chamas, sobre lençóis, mares e florestas (mares do infinito de mim, florestas da complexidade dos meus caminhos). Andei por becos escuros, chorei em cantos imundos, morri vezes e vezes sem fim. Pra renascer e continuar correndo, mesmo que sem chão, por avenidas tortuosas e estradas precárias, aquelas que, vez por outra, ruiam dentro de mim.
Fui nada. Destrocei-me aos pés de quem menos se importou, chorei nos portões do inferno. De tudo vivi, de tudo provei, de tudo cheirei, até aqui. Fui menina, fui criança, fui flor, e fui o mais mísero dos animais.
Até chegar aqui. E sei, mesmo inconsciente, que tudo viajei é por esse único momento. E enquanto olho na placa de quase vidro a me refletir, penso que a a única coisa que sou, é esse reflexo mal feito, olhos vermelhos de chorar, sobrancelhas caídas, cansadada de viver, mulher, carne, osso, espírito, alma. E nada há, no mundo, de maior que isso.
Ombros tensos de dores, mãos trêmulas de vícios, joelhos fatigados de andanças, e um coração, que de tanto viver, amar, sofrer, caminhar, aprendeu o agridoce sabor de ver raiar o dia, novo e límpido.

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